quarta-feira, abril 16, 2008

Ecos Marinhos

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«A Vida, por vezes, é uma canção solitária.»

Ergue-se, estridentemente, por entre os amarfanhar de antigos desejos, enleando-se, sedutores, em torno de pedaços de mar, lambendo a areia branca, carregamento de seixos imperfeitos. Pegadas alastram pelos grãos, moldando formas - humanas, animais - rapidamente apagadas pelo correr da água sobre a palidez do areal. Algas formam desenhos abstractos, contornando, com delicadeza, linhas esguias de uma languidez perturbante.
A cor é feita de notas harmoniosas que se distendem até ao azul que é ambíguo; que preenche as duas faces da mesma moeda - planície espelhada que se estende diante o olhar. São indivisíveis, mais que nunca, as dores que aterram em lamentos e queixumes e carpires que são ignorados pelo jorrar de palavras incoerentes que se passeiam de mãos dadas, formando dormentes frases desnecessárias à compreensão humana.
Entretêm-se as aves com gritos a que, porventura, chamarias cantares, enquanto pés descalços marcam efémeros trilhos de beleza natural - artificialmente criada. Não há, decerto, beachcombers vasculhando e perturbando a tranquilidade serena que tomou, por capricho, aquele recatado recanto.
Uma onda sobressaltada que varre a areia - a nona. Cavalga sobre a praia, pequeno pedaço de céu, e desfaz-se em alva espuma, molhando os pés e arrastando consigo seixos, depositando, carinhosamente, outros.
Um búzio resiste ao chamamento do mar, a sua melodia feita de ecos passados envolve a manhã, como o cheiro a maresia que alastra e inunda de sensações a metáfora de praia.

sábado, março 01, 2008

Sem Título

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«arrepio» - s. m., acção de arrepiar; calafrio;
tremor de frio, de medo, ou nojo; direcção contrária da que é natural; ao -: ao
revés; às avessas; por mal.

Os leds do relógio-despertador iluminavam-lhe o quarto. Tentava dormir mas tinha-se deitado há demasiado pouco tempo, e a falta de sono impedia-o de descansar. Olhava para o vazio escuro do quarto, como se à procura de algo. Vira-se e revira-se procurando o sono que lhe escapa minuto após minuto. Ao abrir os olhos vê o piscar de algo que lhe iluminou, por breves instantes, o quarto. Sente um leve arrepio a subir-lhe pela espinha. Acende a luz do candeeiro e percorre o quarto com a visão. Nada de anormal. Levanta-se, segue até à porta e procura por algo de estranho. Nada, tudo está como tinha deixado. Volta-se a deitar. O piscar novamente. Abre os olhos, busca o interruptor do candeeiro, acende a luz. Endireita-e e visualiza algo na porta. Novamente o arrepio acaricia-lhe a espinha. À porta do quarto está um gato. É um gato magro, com um sorriso de orelha a orelha, com uma argola numa delas. É magro, como se a pele lhe estivesse pequena, e todos os ossos da sua estrutura se esforçassem por se libertar daquela prisão. Observa o gato, este nada faz senão sorrir. A certa altura o gato olha para algo atrás do humano, este olha por cima do ombro, e ainda chega a visualizar uma dentadura que se movia na sua direcção. Acorda sobressaltado. Escorre-lhe suor pela cara. O quarto está escuro. Acende o candeeiro. Nada de anormal. Encontrou o sono mais depressa do que esperava, e aparentemente, deu de caras com um arrepio.

domingo, janeiro 06, 2008

Sonhos de Obsidiana

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«arrepio» - s. m., acção de arrepiar; calafrio; tremor de frio, de medo, ou nojo; direcção contrária da que é natural; ao -: ao revés; às avessas; por mal.



Não foi pela manhã que nunca mais chegava, nem sequer pela solidão excruciante da casa de paredes fechadas onde vivia. Era pequeno, tão diminuto o apartamento. Tão pouco espaço para as coisas. Uma cama de corpo e meio, uma televisão manhosa que só funcionava quando batida precisamente a 3/4 da altura, do lado esquerdo, com uma pancada seca, os armários baratos pintados com uma tinta decididamente não apropriada para a tarefa, a secretária que seria, supostamente, para desmontar, permanentemente montada e equilibrando-se precariamente na sua caótica e miraculosamente estável pilha de livros, as meias, no chão. A janela era absurdamente enorme, ocupava uma parede inteira, tinha caixilhos cruzados como nos filmes, a luz de final de tarde refractando-se e atingindo o pacote de batatas fritas amarrotado em cima da cama por fazer, arrancando-lhe uns brilhos rectos e recortados que brincavam, dourados, na parede por trás da cama.

Não, não era pelo frio que prateava a sua respiração ao mínimo toque com a realidade, que lhe tornava as unhas brancas e arroxeava os dedos, que lhe adormecia os pés na posição em que estava. Num canto da casa minúscula, no canto donde podia ver a janela obliquamente e donde o tampo do balcão da cozinha lhe parecia mais distante, dando a ilusão de um sítio maior, jazia. Estava descalça e talvez por isso o frio fosse mais mordaz, implicativo, mas não incómodo. Era um objecto de transferência e dava-lhe a solidão como quem dá carícias, mas não era por ele, também.

Era o trincolejar das lascas de vidro espalhadas pelo chão. Vidro negro, luzindo ao sol morrendo do fim de tarde -obsidiana. Partiam-se como sedas cortadas por sabres, tão frágeis, indefesos, estes fragmentos. Um por um, chorava-os das mãos, escorregando como lágrimas numa face pálida...morriam-lhe no chão, gotas perpétuas de sangue negro. Rasgavam-lhe a pele fria dos pés, colando-se à sua carne exangue. Como profetas do dia seguinte, ubíquos agoiros da agonia de um caminho sem direcção.

Sabias que a obsidiana não tem cristais? É amorfa, a matéria, é bocado de interior quente cuspido depressa, rejeitado, preterido.

E são as fagulhas geladas desse vidro que disparam o arrepio pela sua pele acima, revoltando-lhe os terminais sensoriais, injectando-lhe uma qualquer hormona na corrente de hemácias, tremendo-lhe o corpo.

Sonhos de obsidiana estilhaçados no chão.

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