«azoar» - v. tr.,atordoar; enfadar; acto ou efeito de fazer barulho e /ou ruído.
Mentir... Bem, é fácil! Quer dizer, vê só: sou extremamente racional acerca de todos os assuntos, tenho o cabelo cor-de-rosa, nunca me arrependi de nada que fiz. Ora bem... Vês? Três mentiras numa frase; poderia ter muitas mais. Prática não me falta, motivação também não.
Além disso, é muito mais simples seguir o caminho mais curto e seguro. E tudo bem, seguro para mim, mas eu não me sinto perigosa. Sinto-me... imaginativa.
Se preciso de algo a que me agarrar para quê dizer que a realidade é verdade? A realidade é uma mentira. O que é real é o destino, a reencarnação, tudo menos eu. Não digas que não. Vejo nos teus olhos que sabes que eu sou uma mentira.
Tu não sabes nada acerca do que está nos meus olhos.
Não sei? Sei sim! Tu olhas repugnada para mim. Os teus olhos cor de nada espremendo-se para chorar com pena de mim. Não digas que isso é mentira, ou a mentirosa serias tu! Ou não? Tu de noite sofres de insónias imensas, temendo teres de resolver os meus problemas! Não negues, eu ouço a tua respiração aflita, os teus revoltares sob os lençóis, os teus fungares a alto som, para ver se alguém repara!
Não sejas parva. Estás a inventar um drama que não existe. A loucura em ti é tão normal como gás na coca-cola.
Cala-te. Não vale a pena falares.
Vale! Vale, porque eu só te estou a chamar à atenção, porque me estás a tentar calar, para que possas viver a tua vida em roupas bonitinhas e fofinhas à vontade! E não te devias queixar, ao menos agora, não estou a mentir, como insistes frequentemente para que eu faça! Fala comigo! Podes parar de me ignorar, se faz favor, sua surda sem cérebro?!
Já te disse para te calares.
Não me calo! Não calo, não calo, não calo!
Agora pareces uma criança mimada. Como aliás, és.
Não me voltes a chamar mimada! Eu era apenas... só, tu sabes disso. Não estava habituada às pessoas. Nunca tive ninguém para me ensinar como ser uma. Ninguém.
Tiveste-me a mim.
Não, não tinha! Tu estavas calada, por nascer, em segurança... Não percebes... Eu estava tão assustada e tu não apareceste para me salvar... Ninguém... Eu julgava que gostavam de mim, que tinha amigos. Sei agora que era apenas uma sonsa, ingénua, odiada. Tão pequena, e já tão perdida. Mas é tempo de parar de falar no passado. Vamos falar de ti. Do presente. Do futuro. Como achas que te vais dar a partir de segunda-feira? Achas que te vais encaixar, que vais voltar a sentir-te como uma peça de um puzzle?
Não sejas ridícula. Eu nunca fui uma peça de um puzzle. Mas agora, vou esforçar-me para ser uma, ainda que não faça parte da gravura partida.
Eu sei que fui eu quem comecei com a metáfora... Mas poderíamos falar a sério? Vais voltar a precisar da minha presença? Vais-me chamar aos gritos no corredor da escola? Espero que sim. Dormir para sempre é demais. Chama-me de vez em quando, só para pôr a conversa em dia, está bem? Ainda que minta. Ainda que tu me vás chorar a verdade (espero que não). Ainda que eu provavelmente te substitua, eventualmente. Outra vez.
Adeus.
Não, não me podes deixar já! Não, eu ainda tenho de te dizer... Eu ainda tenho de...
(azoada, morro, fechada na gaveta, por um presente ainda mais azoado)