sexta-feira, novembro 09, 2007

O Piano

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«azoar» - v. tr.,atordoar; enfadar; acto ou efeito de fazer barulho e /ou ruído.



Dó.

"Sim, cada vez mais metia dó", pensou Tânia, ao debruçar-se sobre o piano que insistia em proteger. Queriam tirá-lo para pôr um móvel "de estilo moderno" como dizia a sua mãe, imagine-se! Um móvel muito bem feito, de madeira de cedro, onde flores, folhas e espirais foram cravadas pelas mãos de um artesão que deveria ser muito famoso, a julgar pelo brilho nos olhos das amiguinhas sempre que a mãe de Tânia lhes falava nele.

Mas ela não podia deixá-lo ir, o piano a quem fizera mais festas que ao gato! O único instrumento que, ao deixar as notas musicais da sua mente escapar, a fazia sentir mais livre, como se de súbito pudesse largar e atirar para longe a grilheta de ferro que carregava diariamente.

Sentou-se no banco de estofos vermelhos, pressionando suavemente as teclas. Ah, lá vinha aquele sentimento de familiaridade, de compreensão. O piano era o melhor dos amigos, pois nunca a julgava. Pelo contrário, só queria ajudar... ajudá-la a desabafar.

Conta-me os teus segredos, Tânia.

Os sons rapidamente soaram pela sala. Moonlight Sonata, de Ludwig van Beethoven. Uma música que adorara desde sempre, desde o momento em que ouvira pelas primeiras vezes as notas iniciais.

"Ah, pai... se não tivesses ido, talvez tivessemos podido ir a muitos mais concertos..." Era isto que o piano de Tânia lamentava, num choro tão melodioso que, quem o ouvisse com os sentidos harmoniosos de um anjo, não hesitaria em juntar-se a esse lamento.

- Tânia, pare de fazer barulho! Já que não me deixa tirar esse piano horroroso da sala, ao menos baixe-lhe a tampa e ponha-lhe algumas jarras em cima!

As notas findaram. Demasiado cedo, sem sequer chegar ao lá. Porque Tânia já não conseguia pensar no lá. O piano era o seu mundo. Aqui seria feliz, longe das correntes que lhe prendiam o coração quando estava com a mãe...

Mas as notas findaram, porque Tânia já não conseguia. E as lágrimas caíam, porque precisavam de fluir e de se juntar a um rio. Um rio para além do lá...

- Assim está melhor, melhor, melhor... - a voz da mãe vinha-lhe turva, como se a ouvisse debaixo de água - E agora venha ajudar-me, em vez de desperdiçar o seu tempo num piano. Temos de falar sobre a festa de amanhã à noite.

Tânia levantou-se. Era agora fantasma, espectro, de grilhetas de ferro e correntes agarradas ao coração de novo. Arrastou-se na direcção da mãe. Mas já não era o lá, era o dó de novo...

Dó da mãe.

Uma semana depois, o piano saiu de casa, para dar lugar ao móvel com as florzinhas, as folhinhas e as espirais. A mãe de Tânia encheu as suas prateleiras com jarras, potes, molduras e bonecos de cristal. Porque a sua música era outra... Moonlight Sonata nunca mais poderia lutar contra o vazio da futilidade.

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